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segunda-feira, 18 de abril de 2016

Artigo: Um novo 1984? O projeto RENAPE e as discussões tecnopolíticas no campo da informática brasileira durante os governos militares na década de 1970


A questão da privacidade e dos direitos sociais em relação aos usos da informática tem sido amplamente discutida na última década, com a disseminação massiva da internet e de um modelo de acesso no qual os dados de usuários e informações pessoais tornaram-se uma importante commodity. É interessante observar que o temor do uso invasivo de dados pessoais associado a máquinas é tema recorrente da ficção científica ao longo do século XX, mas  não ficou restrito à literatura, tornando-se na década de 1970 foco de debate político em diversos países. No Brasil as discussões ocorreram em relação à criação do Registro Nacional de Pessoas Naturais (RENAPE), projeto conduzido com forte influência do Serviço Nacional de informação (SNI), órgão de inteligência do exército e que já contava com experiência com informática desde o início da década de 1970, quando utilizava um IBM /360 na catalogação de fichas biográficas de indivíduos considerados suspeitos.
Esse processo é o foco do artigo " Um novo 1984? O projeto RENAPE e as discussões tecnopolíticas no campo da informática brasileira durante os governos militares na década de 1970", escrito pelo historiador Marcelo Viana da PUC-RS cujo resumo e link para acesso ao texto completo seguem abaixo

RESUMO: Embora os primeiros computadores tenham chegado ao país em fins dos anos 1950, foi a partir da década de 1970 que se disseminaram na sociedade brasileira – Estado, universidades e grandes empresas fortemente investiram na incorporação e desenvolvimento destes artefatos tecnológicos. No entanto, os possíveis usos sociais destas máquinas, no contexto do autoritarismo desenvolvimentista, não eram objetos de consenso e revelavam de certo modo, as posições dos grupos sociais que buscavam influenciar os rumos da Informática brasileira à época. Esta questão foi perceptível no projeto RENAPE – Registro Nacional de Pessoas Naturais –, uma tentativa dos governos militares durante os anos 1970 de criar uma grande base de dados cadastrais informatizada e unificada dos cidadãos brasileiros. Comunidade técnico-científica, políticos e mesmo setores burocráticos mobilizaram-se, através de suas expertises e posições políticas, contra a viabilidade do projeto, visto por alguns como indesejável controle dos cidadãos, semelhante ao descrito na obra “1984” de George Orwell. Assim, nossa pesquisa intenta recuperar este debate, especialmente ocorrido durante o governo Geisel, influenciado pelo ambiente de abertura política “lenta e gradual” e de forte nacionalismo tecnológico.
PALAVRAS CHAVE: Ditadura Civil-Militar. História Social da Tecnologia. Informática
Acesse o texto integral

sexta-feira, 8 de abril de 2016

15º Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia

Chamada para apresentação de trabalhos no 15º Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia que ocorrerá entre 16 e 18 de novembro em Florianópolis/SC no campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
As inscrições vão até 06.05.2016 e devem ser realizadas pelo site: www.15snhct.sbhc.org.br - as informações sobre o simpósio estão em http://www.15snhct.sbhc.org.br/simposio/view?ID_SIMPOSIO=141

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Os avôs do PC (1): Válvulas, transistores, chips

2017 marcará os sessenta anos da instalação do primeiro computador em solo nacional. Isso mesmo, embora a revolução da informática, no sentido do amplo acesso a computadores, seja na forma de PCs, seja na forma de portáteis como Tablets, Smartphones etc. tenha ocorrida apenas nas últimas décadas, já fazem mais de sessenta anos que seus "avôs" tem revolucionado a sociedade. Em geral  a história da informática antes do advento do microcomputador em meados da década de 1970 é dividida em três fases: a primeira geração (1940-1959), marcada pela transição das máquinas de cálculos ligadas à Segunda Guerra para máquinas comerciais de uso administrativo, limitadas a grandes empresas e órgãos governamentais devido a seu alto custo, e ao uso de válvulas como sistema de processamento. A segunda geração (1959-1970) foi impulsionada pela substituição das válvulas por transistores, ocasionando mais estabilidade, segurança, menor consumo de energia, maior capacidade de processamento; a terceira geração (1970) marcada pelo advento do chip, que permitiu acomodar milhões de transistores em pequenas unidades.
Neste post gostaria de chamar a atenção para a diferença desses sistemas de processamento e seu papel na evolução dos computadores, de monstros de metal que ocupavam todo um andar para a tela na qual você pode ler esse texto. Em primeiro lugar é necessário ressaltar que nessa época os computadores possuíam funções mais limitadas, em geral era utilizado para realizar cálculos de altas complexidades. Atualmente, por exemplo, se pensa na potência de um processador por seu valor em giga hertz. Nas décadas de 1940-1950 esse valor era expresso no número de operações que o processadas por segundo. Por exemplo, um ENIAC, podia realizar 5000 somas, 357 multiplicações e 38 divisões por segundo. A nível de comparação um computador moderno com um ciclo de clock de 3,0 GigaHertz realiza 109  multiplicações em um segundo!
A capacidade de processamento está ligada à tecnologia utilizada. Atualmente o processador é um chip composto por milhões (em alguns casos bilhões) de microtransistores. Na época dos primeiros computadores o processamento era feito por meio de válvulas e/ou relés. Para compreendermos essa distinção é  necessário tratar do nível mais básico de operação do computador, o binário. Todo computador, seja em 2016, seja em 1946, funciona fazendo cálculos a partir de uma base binária (1/0, aberto/fechado) por meio de impulsos elétricos. Um impulso eletrico alto (+5 volts) é associado ao bit 1 e um impulso elétrico baixo (0 volts) ao bit 0. Obsermos a diferença dos sistemas decimal e binário:

 
Créditos da tabela: http://www.ufpa.br/dicas/progra/arq-cod.htm



Válvulas, transistores e chips são, portanto, formas de converter impulsos elétricos em informação. As válvulas de computador eram semelhantes a lâmpadas com uma arquitetura mais complexa. As válvulas possuíam grandes desvantagens: em primeiro lugar eram lentas pois processavam os bits um a um (ou seja, cada apagar ou acender de válvula era um bit); em segundo lugar, a principal desvantagem era sua vida útil. Além de gerar calor e consumir muita eletricidade as válvulas queimavam com frequência encarecendo demais a manutenção e ocasionando perda de dados ou de todo o trabalho (imagine o tamanho de seu celular caso o processador fosse formado por lâmpadas...).

Válvula de computadores de primeira geração. Créditos da imagem:
Comparemos rapidamente a estrutura física das válvulas com seus sucessores. Os transistores foram criados em 1947 e aplicados à informática no final da década seguinte. Menores que as válvulas eram mais seguros, geravam menos calor e consumiam menos. Os transistores são semicondutores produzidos a partir de cristais de silício, o que permite uma boa isolação (lembremos que toda informação do computador é basicamente uma pequena descarga de energia).
Placa do processador do IBM 1401. Créditos da imagem: ibm.com
O próximo passo dessa evolução ocorreu no início da década de 1960 quando a Intel lançou o Intel 4004, o primeiro chip comercializado em larga escala. O chip é um estrutura de processamento complexa que possibilita colocar diversos transistores em uma única peça. O 4004 continha aproximadamente 2.300 transistores. Atualmente um chip pode alcançar números superiores a bilhões de transistores em uma única peça.

Chip Intel 4004. Créditos da imagem: wikipedia.org

Para finalizar, observemos a diferença de tamanho e complexidade de computadores valvulados, transistorados e os que operam com chips. O primeiro modelo que apresentamos é o Univac, primeiro computador comercial da história, ocupava um andar inteiro. Foram produzidos cerca de 40 modelos vendidos a milhões de dólares (nos anos 1950!).
UNIVAC 1 em operação, 1954. Créditos da Imagem: http://explorepahistory.com/displayimage.php?imgId=1-2-1536
Na década de 1960 tivemos o auge dos computadores transistorados e o IBM 360 foi o principal modelo desta geração. Ocupava uma sala e era mais potente e confiável que seu antecessor valvulado.
Sistema IBM 360. Créditos da imagem: http://explorepahistory.com/displayimage.php?imgId=1-2-1536
No final da década de 1970 o microcomputador fazia sua estreia a nível comercial. Modelo icônico desta geração foi o Apple II, desenvolvido pela equipe liderada por Steve Jobs e Steve Wozniak. O uso de chips foi fundamental no desenvolvimento de um produto confiável, com boa capacidade de processamento e que cabia em uma mesa de trabalho (desktop).
Apple II, 1977. Créditos d imagem: http://www.cs.columbia.edu/~sedwards/apple2fpga/


Na próxima postagem sobre a primeira geração de computadores trataremos dos primeiros modelos de computador eletromecânicos e sua relação com a Segunda Guerra Mundial.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Propagandas (1)

Na seção "Propagandas" a proposta é circular propagandas de vendedoras e usuários de computador entre as décadas de 1950-1980. Com elas podemos observar importantes transformações no uso de computadores no país: quem comprava, quem vendia, qual público tentava alcançar, que tipo de mensagem era atrelada ao computador, qual o estilo iconográfico de cada propaganda (fotos de equipamentos, de personalidades, gráficos, etc.). Ainda sobre o tema publicidade destaco o texto de Henrique Cuickerman, publicado nos Anais do Shialc 2014 sobre a estratégia de propaganda da COBRA na década de 1970. Para ter acesso ao texto na íntegra Clique aqui.
Iniciaremos a seção com algumas propagandas do ano de 1962. Começavam a circular no país os equipamentos transistorados (segunda geração), com destaque para três empresas: A IBM (líder internacional do mercado e principal player no mercado nacional, com destaque para a linha 1401, a mais instalada no Brasil até o início dos anos 1970), a UNIVAC (que havia instalado a poucos anos o maior computador em funcionamento no país o modelo 1105 do IBGE) e a Burroughs (que havia instalado o B205 na PUC-RJ, primeiro computador utilizado em universidades no país). Poucas empresas podiam arcar com os altos custos de importação, instalação e manutenção, por isso não havia muita variedade em termos de utilizadores, em geral indústrias, bancos ou o poder público (especialmente a nível estadual).
A primeira é a propaganda do Banco de Minas Gerais e Burroughs com a imagem individualizada das partes do sistema:
Publicado no jornal O Globo de 17 de julho de 1962, p.15
Outro tipo bastante popular de propagandas de informática no período era a publicidade na forma de matéria, exemplificada abaixo pela IBM.
Publicado no jornal O Globo de 08 de novembro de 1962, p.15

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Simposio de Historia de la Informática de América Latina y el Caribe (SHIALC)

Desde 2010 o Simposio de Historia de la Informática de América Latina y el Caribe (SHIALC) vêm congregrando pesquisadores e atores ligados à história da informática na América Latina, tanto em pontos de vista mais específicos (no caso as particularidades desse processo em cada país), quanto em perspectivas mais abrangentes, que buscam sistematizar esse processo de uma forma mais integrada e comparativa, pensando similitudes e diferenças em relação à chegada e ao uso de computadores na América Latina.
Os trabalhos apresentados no Shialc tem, em geral, duas perspectivas: de um lado relatos e questões ligadas à memória de agentes ligados à informatização da América Latina; de outros perspectivas mais "historiográficas", sejam em relação a estudos de caso ou de processos mais complexos. Ao longo dos últimos 5 anos desta década foram realizados três encontros e os anais desses simpósio são material rico tanto para pesquisadores mais experientes quanto para iniciantes neste campo. Para acessar os arquivos do primeiro (Assunção, 2010) e segundo (Medellín, 2012) SHIALC clique aqui. Agradeço neste caso ao pessoal da UFRJ e do HCTE (http://www.hcte.ufrj.br/index.html) por disponibilizarem essa documentação.

Participantes do III SHIALC na Universidad de la República em Montevidéu. Créditos da foto: Marcelo Vianna

A última edição do simpósio (Montevidéu, 2014), também contou com a publicação dos anais, clique aqui para fazer o download. Por fim, adianto que o a quarta edição do evento está prevista para ocorrer em meados de outubro de 2016 em Valparaíso, Chile, publicaremos a chamada oficial quando for lançada.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dificuldades nas instalações de primeira e segunda geração (1)

O Brasil adentrou razoavelmente cedo no campo de processamento de dados e em 1960 já contava com aproximadamente uma dúzia de equipamentos instalados ou contratados em via de instalação. O uso de computadores no período era muito complicado, não apenas pelos sistemas de memória de tambor (tanque de mercúrio), ou pelo sistema de entrada de dados por cartões perfurados: a própria infraestrutura do país dificultou em muito o uso de equipamentos de primeira e segunda geração no país.
Nesta série de posts abordaremos as dificuldades infraestruturais para a instalação dos computadores de primeira e segunda geração, que predominaram no país até o início da década de 1970. A postagem de hoje traz uma matéria com foto publicada no Correio da Manhã em 15 de março de 1961 que mostra o desabamento de parte do teto de eucatex sobre o computador UNIVAC 1105 do IBGE, danificando o equipamento e atrasando os serviços de apuração censitária de 1960. 

(Créditos da Imagem: CORREIO DA MANHA, 15 de março de 1961, p.15)

Instalar um computador demandava uma ampla logística: em primeiro lugar não se tratava de duas ou três peças, mas de conjuntos que iam de dez a 20 equipamentos, média, entre eles impressoras, tabuladoras, conferidoras, painel de entrada, sistema de memória, processamento, geradores de energia etc. Ao todo esses mainframes ocupavam todo um andar de escritório ou sala comercial que necessitava de adequações para receber o "cérebro eletrônico": ligações elétricas, espaço planejado para cada equipamento do sistema e, principalmente, um sistema de refrigeração tendo em vista os casos constantes de superaquecimento e queima de válvulas que eram a base do sistema de processamento. Nem sempre tais adequações eram feitas de modo apropriado não sendo incomuns acidentes ou a instalação de computadores em condições precárias. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Dimensões da História da Informática no Brasil

O blog tem por objetivo divulgar atividades acadêmicas, publicações e documentos que auxiliem no estudo da informática no Brasil. As postagens serão realizadas pelo grupo de estudos "Dimensões da História da Informática no Brasil", criado após o seminário de mesmo nome que ocorreu no ESOCITE 2015. Sugerimos a visita ao banco de dados do grupo no link historiadainformatica.pbworks.com/

Para entrar contato com o grupo, sugestões e envio de material escrever para: lucasufabc2015@gmail.com
Na foto secretárias operam o painel do UNIVAC 1105, computador instalado no IBGE e que teve como principal função a apuração do Censo de 1960. Créditos da Foto: IBGE: (http://biblioteca.ibge.gov.br/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=427998)

Pedro Augusto Pinho e a coluna "Processamento de Dados"

                            (Charge representando um "Homem Cibernético". Artista: Vagno. Ano: 1968)

Até o final da década de 1960 não haviam periódicos especializados em informática e as informações sobre os "cérebros eletrônicos" eram publicadas de modo disperso, em coleções pontuais ou anais de eventos eventos como o Congresso Nacional de Processamento de Dados (CNPD), cujo primeiro encontro remete a 1967, ou a Revista do Centro de Processamento de Dados (1961-1963) editada pelo IBGE. Em relação aos jornais de grande circulação a informática passou a ter influência consideravelmente ampliada a partir de 1965 em geral em páginas de economia e ciências, na maioria das vezes se referindo a alguma instalação ou aquisição de computadores por parte de empresas de médio e grande porte.
A partir de 1969 ocorreu uma verdadeira "explosão" da informática no Brasil, período marcado por crescimento rápido tanto no número de máquinas instaladas, quanto na formação de um campo da informática: pesquisa e ensino universitário, ampliação do número de empresas a utilizar serviços de informática por meio dos bureaus de serviço, aprovações de leis fiscais e trabalhistas que demandavam processamento de dados, tais como as notas fiscais, a automação do imposto de renda e o Programa de Integração Social (PIS).
Tal explosão também pode ser sentida nos meios editoriais com o surgimento de publicações especializadas como a Revista da Sucesu (1972) e a Revista Dados e Ideias (1975). Mas antes desses periódicos a informática também passou a figurar de moto mais contundente nos jornais de grande circulação e em 1968 ganharam um espaço próprio: a coluna Processamento de Dados, editada no suplemento Correio Econômico do jornal Correio da Manhã. Pedro, à época jovem e atarefado dividia-se entre as graduações em direito e administração pública e o trabalho na sessão de processamento de dados da Secretaria da Fazenda do Rio de Janeiro, no qual passou a ter contato com computadores, no caso o modelo IBM 1401.


Nesta página farei o upload na íntegra de todas a publicações de Pedro Pinho entre 1968 e 1969 nos jornais Correio da Manhã e O Globo. Suas colunas nos permitem ver de um modo um pouco mais sistemático as discussões sobre a informática no período: debates técnicos e teóricos, a informática em setores como educação, economia, administração, bem como dados sobre números de equipamentos instalados e uso no país. É com grande prazer que inauguro os posts periódicos da coluna "Processamento de Dados" escritas por Pedro Pinho, hoje avô e aposentado, a quem agradeço pelo material e, principalmente, pelas conversas.



Inicio a publicação com um caderno especial publicado em 1968 de 8 páginas, intitulado "O mundo dos computadores" repleto de discussões, informações, propagandas, fotos e imagens sobre os "cérebros eletrônicos" na virada da década. Boa leitura!
Para visualizar todas as páginas clique aqui e acesse o banco de dados do grupo.